3 de mar de 2011

Ana Maria Gonçalves: polêmica Monteiro Lobato e Ziraldo

A escritora Ana Maria Gonçalves publicou em 2006 o romance "Um defeito de cor" em que narra a saga de Kehinde: 
"Kehinde nasceu no reino do Daomé, em 1810 e a cena antiga, primordial da qual se lembra é traumática. Abre o livro. Revelar, numa resenha, o que acontece nas primeiras 10 páginas deste livro seria um pecado comparável a revelar o final do melhor thriller. Ela foi violada, foi escrava, foi mãe; foi também preta liberta, pequena capitalista, refugiada, mulher de inglês, dona de padaria, revoltosa com os muçurumins da Bahia de 1835, libertadora de outros pretos, brasileira de volta na África. Ela é o Riobaldo-Diadorim dos subterrâneos da história brasileira do século XIX."
"Um defeito de cor" foi premiado em 2007 como o melhor romance brasileiro atribuído pela Casa de las Americas, maior prêmio latino-americano de literatura.
Ana Maria Gonçalves autora do premiado "Um defeito de cor"

Com esta credencial Ana Maria Gonçalves assume sua identidade negra de forma ativa e publicou recentemente a "Carta aberta ao Ziraldo" onde desmistifica Monteiro Lobato que é homenageado pelo desenhista e escritor infantil numa camiseta de um bloco carnavalesco de Ipanema, bairro da zonal sul do Rio de Janeiro. 
Desenho de Ziraldo reune o eugenista Lobato e uma mulher negra no seu racismo sem ódio

Ziraldo que já defendera Lobato em um manifesto contrário ao parece do CNE é conhecido autor infantil e em "O Menino Marron" traz a mesma matriz ideológica dos estereótipos da obra do eugenista Monteiro Lobato. Ziraldo novamente saiu em defesa de Lobato quando começaram as críticas a sua ilustração da camiseta do bloco carnavalesco "Que merda é essa?!" e arrogante se justificou dizendo que ele como Lobato praticavam um "racismo sem ódio".

Veja a entrevista exclusiva de Ana Maria Gonçalves:

1 - A repercussão à sua “Carta aberta ao Ziraldo” foi o que você esperava? 

Foi muito maior. Do que mais gostei foi que, concordando ou não com ela, as pessoas estão conversando sobre racismo, assunto que quase sempre é jogado no colo de quem o sofre, pois muitos acham que "racismo não me diz respeito". É a mesma estratégia usada pelos machistas, por exemplo, que acham que o preconceito e a violência contra as mulheres é um poblema das feministas. Não é. Machismo, racismo e qualquer outra forma de preconceito ou discrimição é problema de quem o sente; não da vítima. É em quem o sente que o racismo deve ser tratado; verbo aqui usado nos sentidos de ser submetido a questionamento e tratamento. Essa inversão, no tocante ao preconceito racial, vem dos primórdios da escravidão, quando foi adotado o racismo científico para acalmar as consciências dos mercadores e donos de escravos. Ou seja, se cientificamente fosse "provado" que o negro era inferior, tudo bem escravizá-lo. Dessa maneira, a justificativa para a escravidão estava no escravo, nos seus "defeitos" e nas suas "inferioridades", e não na imoralidade do ato escravizador. É mais ou menos o que se faz com o racismo hoje em dia: se ele afeta o negro, deve ser problema do negro, que traz em si as características incitadoras: nariz chato, cabelo crespo, pele escura, lábio grosso etc... 

Uma pesquisa sobre preconceito racial bastante interessante foi organizada pela antropóloga Lilia Moritz Schwarcz, e pode nos dar uma pista do motivo de esse assunto ser tabu. Uma das perguntas era "Você tem preconceito?", e 96% dos entrevistados disseram que não. Quando perguntados se conheciam alguém que tinha preconceito, 99% dos entrevistados responderam que sim, e que os preconceituosos eram seus amigos próximos, pais e/ou irmãos. Ou seja, no íntimo, as pessoas sabem que racismo existe e está bem próximo. Admitir isso, em alguns casos, é admitir conviver com o racismo e não fazer nada para combatê-lo. Talvez por não ter forças, não ter argumentos, sentir vergonha ou perceber em si cópias ou rastros de comportamentos observados e introjetados, entre outros motivos, o indivíduo nega a existência do racismo para afastá-lo de si, para considerá-lo "problema alheio". Como diz a Lilia, "todo brasileiro se sente uma ilha de democracia racial cercada de racistas". 

O conhecimento da história da escravidão brasileira, seu combate e sua herança, e o diálogo sobre como essa herança vem tomando novos contornos ao ser passada de geração em geração, tem que acontecer para que realmente possamos enfrentar essa questão. O racismo e temas adjacentes estão na estrutura da formação da sociedade brasileira, na criação da nossa identidade, na base de problemas graves e atuais, como a pobreza e a violência, e deve ser tratado com a seriedade e a honestidade que merece. Se a carta contribuiu para colocar esse assunto em discussão, tendo como ponto de partida o ato do Ziraldo, valeu demais a pena. 

2 - Você acha que com a ação de um grupo de militantes do MN motivados pela sua “Carta” no episódio da camiseta do bloco “Que merda é essa?!” defendendo o parecer do CNE e denunciando o caráter eugenista da obra obra de Lobato a questão ganhou outra dimensão? 

Confesso que, inicialmente, fui contra, com medo de que algum incidente desse margem a uma manipulação negativa da opinião pública. O grupo foi lá e provou que meu medo era infundado. Quando as notícias sobre a manifestação começaram a sair na imprensa, achei de novo que poderia estar certa, pela forma como continuaram sem informar o motivo de Lobato ser chamado de racista, como disseram que o parecer já havia sido vetado pelo ministro Haddad, quando na verdade a decisão ainda não foi tomada, e aproveitaram para "lembrar" o ministro de que ele tinha dito que Lobato era um clássico da literatura. No dia seguinte, os jornais complementaram o serviço, chamando personalidades para opinar e desqualificar a ação, chamando de desinformada, ignorante e fundamentalista a parte que continuou sem ser ouvida, a parte que estava defendendo o parecer do CNE. Por outro lado, depois disso, a manipulação ficou tão evidente que alguns jornalistas já começam a produzir matérias honestas, informando que Lobato era racista sim, e que isso deve ser levado em conta ao se tratar do assunto. Ou seja, acho que novos elementos ainda estão sendo agregados, e todos eles modificam o curso dessa história. Uma análise mais justa e clara, que não seja baseada em hipóteses, só pode (e acho que deve) ser feita depois que tudo isso acabar.

3 - Como você avalia além da sua própria carta aberta ao Ziraldo, a posição que ele assumiu com a imagem para a camiseta do bloco Q merda...”, que mudanças você observa que ocorreram pela repercussão havida na mídia e no ânimo de grupos antiracistas e porque? 

Pelas manifestações que tenho lido e recebido, acho que esse episódio renovou um pouco os ânimos. Será muito bom se o efeito for duradouro e conseguir juntar todo mundo que luta pela causa, independente se é do movimento negro, da academia, da mídia, do poder público ou simpatizante à causa. A força está aí; dividir é enfraquecer. 

No excelente artigo "Ziraldo e Lobato no desenho do racismo à brasileira", da antropóloga Heloísa Pires Lima, há uma informação bem interessante: o isolamento do Ziraldo. Ninguém foi à grande mídia defendê-lo. Defendem outros fatos ao redor da polêmica, muitos baseados na desinformação de quem segue o caso através de alguns jornais e revistas. Isso é significativo porque talvez as pessoas tenham percebido que, ao defendê-lo, estariam defendendo também a atitude ofensiva, desinformada e pretensiosa que ele teve, principalmente em relação à frase "racismo sem ódio não é racismo". Frase que, a meu ver, é indefensável. Mas ainda tenho fé na humanidade, caso contrário não estaria na luta. Quem sabe, passado isso tudo, o Ziraldo não reflete sobre as consequências do que falou, revê seus conceitos e se torna um grande aliado? Seria muito bom pra todos nós, e um excelente exemplo a ser seguido por quem reluta em ver preconceito onde ele inegavelmente está, ou o pratica sem saber o que está fazendo. 

4 - Sendo você escritora e crítica antiracista como avalia a posição da ABL - Academia Brasileira de Letras - interpretando o parecer do CNE -Conselho Nacional de Educação - com o estigma da censura tão marcante na vida cultural brasileira em vez de focar na advertência e nos procedimentos que o CNE recomenda? 

Achei bastante desrespeitosa a atitude da ABL com o CNE e a SEPPIR, instituições competentes para cuidar do caso. Entendo que a Academia Brasileira de Letras deve defender a literatura, mas deveria também, antes de acreditar na imprensa que clamava por censura, interessar-se por ouvir os motivos de quem elaborou o parecer. Um dado bastante curioso, aliás, é que por duas vezes a candidatura de Monteiro Lobato à ABL não deu certo. Há controvérsias quanto aos motivos (parece-me que na primeira vez ele foi rejeitado, e na segunda retirou a candidatura) mas é fato que, tanto antes quanto depois das candidaturas fracassadas, Lobato sempre manifestou desprezo pela ABL. Pergunto-me se, ao não levar isso em conta, a ABL também não tenha desrespeitado a memória de seu fundador e primeiro presidente, o mestiço e suburbano Machado de Assis. É sempre bom lembrar o que Lobato dizia dos mestiços e suburbanos: "(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).

5 - Como você avalia a postura crítica de Ziraldo, Ruth Rocha e Ana Maria Machado (postadas por você numa nota em seu Facebook) de se pronunciarem num manifesto de defesa da obra de Monteiro Lobato tendo sido eles críticos em certos aspectos a Lobato? 

É o que eu gostaria de entender. Em 2002, Ziraldo disse que os livros de Lobato estão cheios de preconceitos, e que para ele (Lobato), Tia Nastácia era uma negra negra beiçola e retardada, gozada pelos outros personagens. Em 2009, a Ana Maria Machado disse que os livros de Lobato possuem ilustrações horrorosas e são pouco atraentes para as crianças de hoje; os próprios netos só se interessam se ela mesma os lê para eles. Em 2010, a Ruth Rocha diz que são de difícil compreensão para as crianças, que enfrentam problemas de alfabetização. São críticas de pessoas importantes no atual cenário da literatura infantojuvenil brasileira. Não deveriam ter tido o mesmo peso que os argumentos usados na defesa da manutenção irretocável de Caçadas de Pedrinho no currículo escolar? Livros cheios de preconceitos, com ilustrações horrorosas, pouco atraentes e de difícil compreensão são indicados para, entre crianças a partir de 9, 10 anos, inspirar debate que combata o racismo, sendo que grande parte dos adultos está penando para mantê-lo num nível honesto, embasado, racional e livre de pré-conceitos? 

3 comentários:

Oswaldo disse...

Ana Maria Gonçalves, que se revelou uma escritora profunda ao nos dar essa pérola intitulada "Defeito de Cor", conquistou um espaço definitivo no seleto grupo de intelectuais negros que não adocicam a discução antirracista. Ao contrário, traz-nos o tema com todo o seu amargor, não poupa ninguém, documenta suas afirmações, contrargumenta todas as tentantivas de escamoteio. Enfim, esses que desqualificam nossos intelectuais e se acostumaram com o peso leve de nossos debates, encontraram, finalmente, um Mike Tyson a combate-los. Parabéns a todos nós que temos Ana Maria Gonçalves ao nosso lado!!!!

Brenda Ligia disse...

A Ana é MINHA PRIMA!!!

Tilápia Suburbana disse...

Alguém tem o contato da Ana para me passar?
Gostaria de convidá-la para participar de uma atividade na universidade que estudo.
obrigado
Faelrj@gmail.com