23 de mai de 2008

Gravataí (RS) discute lei 10.639

(transcrição integral)

Assessoria do Negro
Sociedade Seis de Maio discute implementação da Lei 10.639

Fotos: Secom/PMG - Marilene Zandonai

Dentro das comemorações de aniversário, a Sociedade Beneficente Seis de Maio realizou neste domingo (18) uma mesa redonda para debater a implementação da Lei 10.639/03, que trata da História e Cultura dos Afro-brasileiros no currículo escolar. O evento contou com apoio da Assessoria de Políticas Públicas para o Negro (APPN) e da Secretaria Municipal de Educação (Smed).


A mediadora do debate foi a assessora pedagógica da Smed, Terezinha Juracy Machado da Silva. Após a apresentação do vídeo “A cor da Cultura” e da projeção do filme “As filhas do Vento”, Terezinha falou sobre o encontro em Curitiba, nos dias 13 e 14, promovido pelo Ministério da Educação, com representantes de secretarias estaduais e municipais da educação e com representantes da sociedade civil, para tratar da implementação da Lei 10.639.


“O que ficou bem claro, através do documento formatado, foi a reafirmação de que a Lei 11.645/07, que trata especificamente das questões indígenas, não veio para substituir a 10.639”, afirma a mediadora. Para ela, a Lei 11.645 deverá ser discutida pela sociedade brasileira em um outro momento.


Comunidade presente
O assessor municipal de Políticas Públicas para o Negro, Claudiomiro Silva da Silva, comenta que a atividade conseguiu agregar pessoas da comunidade desejosas de conhecer e discutir as propostas contidas na Lei 10.639. “Estamos trabalhando na aplicabilidade dessa lei junto com a Smed”, diz. Silva vem acompanhando as Formações Continuadas promovidas pela Smed para os professores da rede municipal de ensino sobre a introdução da História e Cultura Afro-brasileira no currículo das escolas municipais.


O coordenador-geral da Sociedade Seis de Maio, Lizandro Paim, afirmou na ocasião que esse e outros temas pertinentes à cultura e história dos afros-descendentes serão abordados durante o ano. Ao final do encontro os participantes receberam certificados.

Fonte: Prefeitura de Gravataí

11 de mai de 2008

Escravidão e Abolição na Telenovela

A Cabana do Pai Tomás

Sérgio Cardoso e Ruth de Souza um "casal negro" na telenovela em 1969.

O tipo Black Face consagrado pelo teatro e pelo cinema norte-americanos apresentava o ator branco representando um personagem negro. O ator era pintado de preto e usava enchimento na boca, no nariz e peruca demonstrando que um ator negro não estaria a altura daquele desempenho.

Esta prática foi utilizada pelo ator Sérgio Cardoso, tipo galã, muito popular nos anos 60 para ser o protagonista - Pai Tomás - da telenovela A Cabana do Pai Tomás ao lado de Ruth de Souza. Contratado dos patrocinadores Colgate-Pamolive o ator foi imposto pela empresa para o papel principal na telenovela da TV Globo.

A "Cabana do Pai Tomás" foi a tradução para o título do romance de Harriet Beecher Uncle Tom's Cabin publicado em 1852 e que se tornou o primeiro sucesso de vendas com cerca de 4,5 milhões de exemplares vendidos as vésperas da guerra civil americana. Em comentário feito pelo Presidente norte-americano Abraham Lincon responsável pela Abolição da Escravidão (1863) o livro contribuiu tanto para o fim da escravidão como para a guerra civil (1861-1865).

Em 1903 teve sua primeira versão cinematográfica nos EUA, e no Brasil sua primeira versão foi em 1909. O cinema vai assim fortalecer e ampliar o estereótipo do preto-velho servil e bondoso que passa a ser difundido para um público novo e maior.

Nos EUA alguém ser reconhecido como Tio Tom (Uncle Tom) é uma ofensa ao orgulho negro porque significa aquele que aceita a opressão e é servil. No Brasil o seu correlato é o Pai João.

No Brasil o mito do Preto-Velho também já pertencia ao imaginário popular formado desde o período colonial português como um personagem que por sua vivência no cativeiro e idade avançada se tornava um portador de histórias (griot), saber ancestral e poderes místicos o que vai resultar sua transformação numa entidade religiosa na Umbanda encontrado com diversas denominações: Pai José, Pai Francisco, etc.

A telenovela Cabana do Pai Tomás foi exibida para o público brasileiro a partir de 1969 pela TV Globo no período mais opressivo da ditadura militar e iniciando um ciclo sobre o tema da escravidão e do abolicionismo com sete telenovelas exibidas durante uma década (1969-1979). Este ciclo de telenovelas acompanha dois momentos críticos da história nacional: o auge da ditadura militar e início da sua decadência.

As telenovelas sobre a escravidão no período do regime militar foram como uma espécie de metáfora perversa para aquele período autoritário em que se poderia encontrar no seu subtexto uma associação entre a escravidão e o período ditatorial. Além de que confirmavam a versão da história oficial de que a libertação dos escravos foi uma ação realizada pelos brancos ou por ironia dito de outra forma, segundo seus interesses.

As telenovelas dos horários das 18h e 19h naquele período ditatorial buscavam em determinadas obras literárias para suas adaptações uma forma de cumprir o papel de uma televisão "bem comportada" conforme exigiam os militares. E ainda, na medida em que tais adaptações tinham de alguma forma a capacidade de recuperar imagens e mitos do passado que fundamentavam e davam sentido à ideia de nacionalidade e ordem pretendida pelo regime militar.

Segundo Joel Zito em A Negação do Brasil: O Negro Na Telenovela Brasileira*, tais adaptações literárias contribuíram nos anos do regime militar para a continuidade e reafirmação do ideário de branqueamento que aquela literatura divulgava. Indicando ser este um exemplo da influência de empresas estrangeiras na vida social e política nacional através da imposição de seu racismo e preconceitos difundidos para o povo. E valendo-se da existência de uma ditadura no país, enquanto no EUA os negros protestavam fazendo a Campanha pelos Direitos Civis, impuseram aqui um estereótipo já banido da TV e do cinema nos EUA.


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