20 de mai de 2010

Desconstruindo o racismo: Beleza Pura, uma música racista?


Beleza Pura
De: Caetano Veloso

Não me amarra dinheiro não/ Mas formosura/ Dinheiro não/ A pele escura / Dinheiro não / A carne dura / Dinheiro não / Moça preta do curuzu/ Beleza pura/ Boca do Rio/ Beleza pura/ Dinheiro não/
Quando essa preta começa/ a tratar do cabelo/ É de se olhar/Toda a trama da trança/ a transa do cabelo/ Conchas do mar/ Ela manda buscar pra botar/ no cabelo/ É de se olhar/ Toda a trama da trança/ a transa do cabelo/ Conchas do mar/ Ela manda buscar pra/ botar no cabelo/ Toda minúcia/ Toda delícia/ Não me amarra dinheiro não/ Mas elegância/
Não me amarra dinheiro não/ Mas a cultura/ Dinheiro não/ A pele escura/ Dinheiro não/ A carne dura/ Dinheiro não/
Moço lindo do Badauê/ Beleza pura/ Do Iê Aiyê/ Beleza pura/ Dinheiro yeah/ Beleza pura/ Dinheiro não/ Dentro daquele turbante/ do Filho de Ghandi/ É o que há/ Tudo é chique demais, tudo/ é muito elegante/ Manda botar/ Fina palha da costa e que tudo se trance/ Todos os búzios/ Todos os ócios/
Não me amarra dinheiro não,/ mas os mistérios

Beleza Pura música e letra de Caetano Veloso apesar de seu aparente e forte sentido de exaltação à beleza negra é carregada de imagens estereotipadas e preconceituosas.
Seria Caetano Veloso racista?
Acredito que não vá aí nenhuma má vontade minha com Caetano Veloso como não houve dele para com o autor de Feitiço da Vila quando ele fez uma releitura desconstrutiva da letra daquele samba revelando o preconceito racial contido naquelas imagens poéticas em torno de uma rixa entre Noel e Wilson Batista.
Beleza Pura procura fazer uma exaltação ao negro, à sua cultura e a sua sensualidade e assim parece passar uma idéia positiva na celebração da beleza negra.
Nos primeiros versos as rimas das palavras formosura/pele escura/carne dura/ beleza pura, sugerem uma imagem para a "moça preta do Curuzu" e o "moço lindo do Badauê" que se completa com as trançinhas enfeitadas com conchas do mar, o turbante chique e elegante dos Filhos de Gandhi e a participação nos blocos afro-carnavalescos formando uma plasticidade estereotipada do negro baiano. 
Mas a exaltação que se insinua à beleza negra tem contudo uma primeira condição: "quando essa preta começa a tratar do cabelo/é de se olhar":
O que isso sugere?
Que, ao contrário se a preta não trata do cabelo, ela não é visível, e quem seriam, onde estariam as pretas invisíveis, aquelas que não tratam do cabelo e que por isso não merecem ser olhadas?
Certamente, estariam fora dos blocos afro-carnavalescos e daqueles outros cenários que a letra da música identifica ou segere, são aquelas pretas que estariam numa condição miserável que as impediriam até de "tratarem" do cabelo da maneira mais singela que se pode permitir:
"Ela manda buscar pra botar/ no cabelo/ É de se olhar/ Toda a trama da trança/ a transa do cabelo/ Conchas do mar/ Ela manda buscar pra/ botar no cabelo"

Já, a segunda condição é repetida como um refrão e é ressaltada também para o reconhecimento e a visibilidade da beleza negra: a beleza é pura, o dinheiro, não, ele se opõe à beleza negra, ele a torna impura.
Não me amarra dinheiro não/ Mas a cultura/ Dinheiro não/ A pele escura/ Dinheiro não/ A carne dura/ Dinheiro não
A primeira vista é uma comparação positiva o dinheiro é sujo, a beleza negra é pura.
Mas vejamos, com este sentido, o dinheiro estaria sendo empregado como uma metáfora em oposição ao que a beleza negra representaria, a pureza.
Esta alegoria sugere que o dinheiro é um mal, é corruptor, impuro, excludente da beleza pura (negra ) que tem que estar oposta ao dinheiro para continuar pura.
Em sentido contrário, positivo, o dinheiro representa a liberdade, a visibilidade... e por que não, também, a beleza e a pureza?
Esta inversão de sentido do significado de dinheiro na letra da música Beleza Pura é para ressaltar o que pode ficar oculto numa imagem poética quando ela aparece associada aos múltiplos significados possíveis e mesmo opostos que a palavra dinheiro provoca: dependendo da maneira com que é empregada. Neste sentido, a letra da música Beleza Pura teria um significado ambíguo.
Seja sob o sentido negativo ou positivo do dinheiro pelo qual ele possa estar representado e relaciondo a uma idéia da beleza negra, aí se forma uma imagem que a condiciona a um modelo, a uma ordem, neste caso formada pelas crenças do artista e reveladas através de seu talento criador.
Como a realidade nem sempre é tão poética, ao contrário, o que podemos observar é que a imagem da beleza negra da forma como é exaltada na poesia é análoga a imagem do negro excluído socialmente.
E que também é a imagem que forma um quadro "feio" (oposto à beleza) da realidade e para amenizar a feiúra da realidade, porque não exaltar a beleza negra deixando a realidade mais bonita?(1)
O significado dessa exaltação à beleza negra idêntica a imagem do negro excluído é mais significativa quando colocada ao lado da crítica que Caetano Veloso faz às cotas raciais nas Universiddes Públicas e no emprego e que visam a redução das desigualdades econômicas e sociais entre negros e brancos.
Para Caetano junto aos "113 cidadãos anti-racistas..." que assinaram o manifesto anti-cotas raciais não deve existir uma beleza pura, o que eles defendem é uma "mestiçagem" que dilui não somente a identidade negra como o seu direito à reparação do que a cor da pele negra serviu para que lhe negassem: o direito à beleza e também o acesso ao dinheiro.
Esta interpretação de Beleza Pura na perspectiva desconstrutivista (2), assim como fez Caetano Veloso com Feitiço da Vila,  revelam "aquilo" que escapa nos discursos, nas sua "fissuras" dos sentidos: o que não conseguimos ocultar porque são nossas produções de desejos.
"Não me amarra dinheiro não,/ mas os mistérios"
Referências:
(1) Baumam, Z., O mal-estar da pós-modernidade, 1998, RJ, J. Zahar Ed.
Republicada em 20/05/2010
Primeira publicação em 23/08/2008

4 comentários:

Anônimo disse...

Eu gostaria de tentar também uma outra interpretação para a parte da música que diz: "Quando essa preta começa/ a tratar do cabelo/ É de se olhar..."

Ele quer realçar o pensamento que ele tem contra nós de que somos descuidados com o nosso corpo e nosso cabelo. O "tratar" do cabelo seria o alisamento que impuseram às nossas mulheres numa atitude de sujeição ao modelo que o BRANCO quer? Será que sem o alisamento não existe tratamento para os nossos cabelos?
Pois tranças nossas meninas fazem desde cedo.

Se eu cantasse: Quandos os brancos começam a deixar de serem racistas/ é de se admirar (ou olhar)..., seria isso aceitável pra eles?

O começam a alguma coisa me remete à algo que nunca se fez antes.

Carlos Sant'Anna disse...

Achei muito interessante o debate em torno da letra do Caetano, inclusive, conheço essa canção há mais de 20 anos.
Sei da posição política do Caetano Veloso sobre a proposta de cotas raciais nas universidades, discordo profundamente dele.
Contudo, devemos separar a criação do artista, sobretudo que ela faz muito tempo e a posição política atual dele. Repito, essa canção tem mais de 20 anos. Creio que essa canção é do mesmo período ele fez uma canção maravilhosa em homenagem ao Ilê Ayê. O que dizer sobre isso? Como sabemos, a interpretação deve levar em conta o contexto histórico e social. Creio que falta incorporar o contetxo nas duas interpretações.
Em primeiro lugar, devemos olhar o contexto, na Bahia tratar do cabelo não significa alisar o cabelo. Nesse ponto ele é explícito " Ela manda buscar pra botar/no cabelo/ é de se olhar/ toda a trama da trança/ a transa do cabelo/ Conchas do mar......". Ora, meus caros, no contexto baiano isso é tratar do cabelo. Por favor, não devemos confundir com os "tratamentos" (leia-se alisamento) atuais dos cabelos. Definitivamente não era esse o tratamento que ele queria dizer, até porque a época, só havia, no Brasil, o alisamento a ferro quente.
Minha interpretação é bem distinta. Quanto a oposição de beleza e dinheiro, é o velho recurso da oposição. Ele não é o primeiro a associar dinheiro ao impuro e beleza ao puro e belo.

Anônimo disse...

Não me amarra dinheiro não/ Mas formosura/ Dinheiro não/ A pele escura / Dinheiro não / A carne dura / Dinheiro não / Moça preta do curuzu/ Beleza pura.

Fica notório também a sexualização do corpo do negro quando na música ele relaciona a pele escura com a carne dura. Conota a ideia de que a moça preta que tem a pele escura também tem a carne dura e é mais desejável sexualmente, voluptuosa e etc... Isso remete a uma realidade história de exploração sexual de nós negr@s, tanto mulheres quanto homens, escravizados também sexualmente.

Ivan Campos Araya disse...

Acho que não há dinheiro ou peita que pudesse mudar o valor e a beleza integral do ser preto. Paulinho da Viola já falou que a gente é assim quem quiser gosta ou não gosta, assim morrerá. Com respeito e carinho desde a Costa Rica para os irmãos do Brasil.